terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Estreia

Estreia aqui no blog, então pra começar, nada melhor que uma Lira do Tomás Gonzaga para a sua Marília:

"Numa noite, sossegado,
Velhos papéis revolvia,
E por ver de que tratavam
Um por um a todos lia.

Eram cópias emendadas
De quantos versos melhores
Eu compus na tenra idade
A meus diversos amores.

Aqui leio justas queixas
Contra a ventura formadas,
Leio excessos mal aceitos,
Doces promessas quebradas.

Vendo sem-razões tamanhas,
Eu exclamo, transportado:
Que finezas tão mal feitas,
Que tempo tão mal passado!

Junto pois num grande monte
Os soltos papéis, e logo,
Por que relíquias não fiquem,
Os intento pôr no fogo.

Então vejo que o Deus cego,
Com semblante carregado,
Assim me fala e crimina
O meu intento acertado:

Queres queimar esses versos?
Dize, Pastor atrevido,
Essas Liras não te foram
Inspiradas por Cupido?

Achas que de tais amores
Não deve existir memória?
Sepultando esses triunfos,
Não roubas a minha glória?

Disse Amor; e mal se cala,
Nos seus ombros a mão pondo,
Com um semblante sereno,
Assim à queixa respondo:

Depois, Amor, de me dares
A minha Marília bela,
Devo guardar umas Liras,
Que não são em honra dela?

E que importa, Amor, que importa
Que a estes papéis destrua?
Se é tua esta mão, que as rasga,
Se a chama, que os queima, é tua?

Apenas Amor me escuta,
Manda que os lance nas brasas;
E ergue a chama c´o vento,
Que formou, batendo as asas.



Boa noite e até mais.

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