“ Cheirava simples o mar, mas ao mesmo tempo cheirava grandioso e único, de tal maneira que Grenouille vacilava em dividir seus odores de peixe, de sal, de água, de algas, de frescor... Preferia deixar o cheiro do mar reunido, preservava-o como um todo na memória e o fruía indiviso. O aroma do mar agradava-lhe tanto que ele desejava recebê-lo um dia tão puro e em tal quantidade que nele pudesse embebedar-se. E mais tarde, ao ficar sabendo, por narrativas, quão grande era o mar e que nele se podia navegar durante dias com navios sem ver terra alguma, nada mais o seduzia tanto quanto imaginar que estava num desses navios, lá em cima, na cesta da gávea, no mastro da frente, a voar lá dentro através do infinito aroma do mar, que, a rigor, nem era um aroma, mas um hálito, um sopro, o fim de todos os odores, e se desfazia de prazer nesse hálito. Mas isso nunca deveria chegar a ocorrer, pois Grenouille, parado na Place de Grève, junto à margem, várias vezes inspirando e expirando um fragmento de vento do mar que havia chegado ao seu nariz, jamais em sua vida, haveria de ver o mar, o mar de verdade, o grande e imenso oceano que havia a ocidente, nem jamais haveria de misturar-se com esse aroma.”
de O Perfume.
Só o mar me entenderia hoje...
Decisão
Há 2 anos
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