“O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.”
"O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer’. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, minha avó Josefa; ela estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver”.
"O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer’. Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, minha avó Josefa; ela estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver”.
Estes são trechos do discurso que José Saramago proferiu quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Eu, sempre que quero sentir beleza na vida leio este texto, e senti que seria perfeito usá-lo como link pra contar um episódio que ocorreu esta semana.
Quarta-feira, aula de Direito Civil. Entro na sala e a turma toda está agitadíssima com uma figura que tomou a frente do quadro. Um senhor de uns 50 anos, aparentemente morador de rua, sem dentes, com a roupa suja, tirando vários papéis, cartões, trechos de revistas e garrafas de bebida de uma caixa de papelão que ele trazia consigo. A primeira impressão foi preconceituosa, fiquei com medo, mas comecei a achar aquilo muito engraçado, como todos os outros colegas na sala. Nós o apelidamos de Professor José Carlos, qual foi o nome que ele disse ter. Os alunos pediam: “Professor! Ensine-nos matemática agora” – “ não, isso está mais parecido com filosofia” – “ah professor, não entendi, escreva no quadro!”. E ele SABIA escrever! Pelo desapontamento do preconceito nosso ele começou a escrever corretamente suas frases loucas, mas intrigantes. Foi o bastante para ficarmos ainda mais curiosos pela vida dele.
Quarta-feira, aula de Direito Civil. Entro na sala e a turma toda está agitadíssima com uma figura que tomou a frente do quadro. Um senhor de uns 50 anos, aparentemente morador de rua, sem dentes, com a roupa suja, tirando vários papéis, cartões, trechos de revistas e garrafas de bebida de uma caixa de papelão que ele trazia consigo. A primeira impressão foi preconceituosa, fiquei com medo, mas comecei a achar aquilo muito engraçado, como todos os outros colegas na sala. Nós o apelidamos de Professor José Carlos, qual foi o nome que ele disse ter. Os alunos pediam: “Professor! Ensine-nos matemática agora” – “ não, isso está mais parecido com filosofia” – “ah professor, não entendi, escreva no quadro!”. E ele SABIA escrever! Pelo desapontamento do preconceito nosso ele começou a escrever corretamente suas frases loucas, mas intrigantes. Foi o bastante para ficarmos ainda mais curiosos pela vida dele.
Perguntamos sobre sua família, seu trabalho, sua roupa, sua casa, à qual ele respondeu: “minha casa sou eu mesmo, moro dentro de mim.”
Nossa colega Bianca foi comprar um lanche para aquele louco, faminto e encantador senhor. Ele logo fez da mesa do professor sua mesa de refeição e agradeceu a giz no quadro negro: “Obrigado Bianca.”
Nossa colega Bianca foi comprar um lanche para aquele louco, faminto e encantador senhor. Ele logo fez da mesa do professor sua mesa de refeição e agradeceu a giz no quadro negro: “Obrigado Bianca.”
A esta altura, os olhos estavam todos voltados para ele. Alguém lá do fundo pediu: “Nos dê aula de inglês professor!”. Ele largou seu lanche e pegou o giz. Nós só olhávamos uns para os outros ansiosos pelo que iria acontecer, quando ele começou a falar sobre “verb to be”! Montou sua tabela no quadro, com 1ª, 2ª e 3ª pessoa, verbos auxiliares e FALANDO em inglês! Depois escreveu várias frases e nos contou que morou na Inglaterra por 10 anos. Falou ainda em francês, alemão e italiano. Foi quando os seguranças da universidade vieram buscá-lo como se ele estivesse prejudicando alguma coisa ou alguém ali.
Nosso professor José, ciente de que já teve muita sorte de ter ficado ali por tanto tempo sem ninguém tê-lo mandado embora antes, nos disse: “Vocês conhecem a lei da relatividade? Ela diz que quando estamos com pessoas queridas, 1 hora se torna 1 minuto e quando estamos sozinhos 1 minuto se torna 1 hora”.
Ele saiu da sala escoltado pelos seguranças e pela turma toda o aplaudindo e agradecendo pelas barreiras que ele rompeu naquela turma de Direito.
Nosso José foi o exemplo vivo do que o escritor José disse no seu discurso, com a diferença de que o nosso sábio, além de tudo o mais, sabia escr
ever. 
1 comentários:
Que lindo Thu*!!
Foi a aula mais animada...
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